Debater o BNDES é querer outro Brasil PDF Print E-mail
Written by Carlos Tautz (Plataforma BNDES)   
Friday, 04 December 2009 14:46
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Em todos os fóruns críticos sobre os rumos do Brasil, chegamos sempre, mais cedo ou mais tarde, à mesma constatação: a fonte real de poder de todos os países, Brasil aí incluído, é a economia, e não mais os parlamentos nem a Justiça. São nas várias instâncias econômicas do Estado e das empresas privadas que se definem as relações de poder que nos impõe um determinado modo de vida e que, em geral, nos reserva apenas os impactos e nunca as benesses produzidas.

Nossa resposta a esse estado de coisas tem sido sempre, também, parecida. “Precisamos repolitizar a economia”, temos dito, sem apontar os meios objetivos de transformar essa constatação teórica em realidade. Afinal, nós, povo, não controlamos os meios de produção. Pressionar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a reorientar a sua atuação é a grande chance de dar consequência prática ao nosso discurso. É o BNDES quem concebe e financia as grandes obras que moldam o nosso desenvolvimento, organizam o território brasileiro de acordo com as estratégias comerciais de grandes grupos e que termina por engendrar relações de poder entre esses agentes
econômicos e a cúpula do Estado brasileiro.

Não é pouca coisa de que tratamos, quando nos dedicamos a esse grade instrumento público (e que precisa continuar a sê-lo) de financiamento da nossa economia. O BNDES adquiriu uma centralidade tal na vida brasileira, que a afirmação do seu caráter público por meio da democratização de seu processo de tomada de decisões geraria enormes benefícios em cadeia, que se transformariam em meios reais de melhoria devida para enormes parcelas na sociedade.

O Banco e os agentes econômicos a ele associados, entretanto, resistem a essa virada histórica. Não apenas pelo que ela representa em si, mas, também, devido a outras duas questões.

Primeiro, porque quem toma a iniciativa de demandar a reorientação do Banco não são financistas nem burocratas. São os excluídos da festa de produção de rendas produzidas pela exploração danosa às gentes e ao território nacional, seus biomas e suas culturas. São ribeirinhos, remanescentes de quilombos, trabalhadores da cana, desempregados, negras e negros colocados deliberadamente à parte das estruturas econômicas projetadas para produzir excedentes e gerar concentraçoes de todas as
ordens.

O potencial dessa iniciativa, assim, traz o germe das mais importantes mudanças sociais já verificadas no Brasil, justamente porque garante ao povo o papel de protagonista, e não de figurante dessa história.
O segundo grande temor daqueles que desejam permanecer senhoriando o Banco é o fato de que o povo brasileiro retome o gosto pelo saudável hábito de pensar o Brasil e passe a transformar esse pensamento em mais e melhores escolas, moradias, hospitais, políticas públicas e, finalmente, uma nova capacidade produtiva. Uma capacidade produtiva justa, capaz de distribuir riquezas entre os gêneros e as etnias, limpa, equilibrada e adequada aos novos tempos de tomada de consciência da
mudança de paradigmas que significam as mudanças climáticas.

O terceiro temor é ainda mais grave, para os senhores do banco, porque tem a capacidade de alterar a inserção do Brasil no mundo, que em essência não muda desde quando os europeus chegaram aqui, no século 16.

Afinal, ao colocar em xeque opções estratégicas do Banco, como a mal explicada determinação de criar e subsidiar, mesmo que a ferro e fogo, grandes grupos instalados no Brasil mas com o coração e a mente fincados nos exterior, estamos, em verdade, dizendo: queremos puxar para nós a responsabilidade de dizer qual Brasil queremos e de que maneira criamos a condições objetivas para chegarmos lá.

O “Atingidos – I Encontro sulamericano de populações impactadas pelos projetos financiados pelo BNDES” tem esse potencial. É nisso que apostamos.

Texto publicado em 26/11/2009 no jornal Brasil de Fato
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