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Artigo
A crise e o fluxo de negócios
*Luciana Badin
Todo ano, o BNDES publica uma análise, realizada pela Área de Pesquisa
Econômica (APE), sobre as perspectivas dos investimentos do país para
os quatro anos seguintes. A partir de dados que o Banco reúne por
conta do seu papel de principal indutor dos investimentos nacionais, é
realizada uma análise do horizonte de investimento e publicada no
Boletim “Visão do Desenvolvimento”.
Nessa análise , são
considerados 16 setores da indústria, seis de infraesrutura, além de
setores de construção residencial. A escolha desses setores, segundo
os autores do estudo, deve-se não apenas pela importância desses na
formação da taxa de investimento da economia, mas pelo fato de o
próprio Banco ter dados atualizados sobre tais segmentos. É posto
ainda que, por conta de “dificuldades de obtenção de informação, o
levantamento não cobre setores industriais com grande número de micro
e pequenas empresas , particularmente aquelas intensivas em trabalho”.
Essas considerações metodológicas, que balizam o corte dado para a
análise realizada pelo BNDES, são reveladoras do próprio padrão de
atuação que prepondera nas suas escolhas de aplicação de recursos.
Dito de outra forma, o escopo da análise do BNDES ao privilegiar
determinados setores e não levar em consideração outros, seja por não
ter dados disponíveis, seja por considerar dispensável o esforço de
sua sistematização, mostram o papel secundário e pouco relevante que
determinados setores/segmentos ocupam na visão de desenvolvimento do
BNDES.
A novidade desse
último mapeamento, que cobre o período 2009-2012, é a crise financeira
internacional que despontou com toda a sua magnitude em setembro de
2008. Nesse novo cenário, questões que estiveram problematizadas nas
análises anteriores como fragilidades potenciais do nosso padrão de
desenvolvimento tomam outro lugar na medida que afetam de maneira
direta os planos de investimento das empresas voltadas para
exportação. As consequências da excessiva concentração dos
investimentos industriais em setores extrativistas e de insumos
básicos – ou seja, extração de petróleo e minério de ferro, siderurgia
e papel e celulose - não podem mais ser ignorados ou subavalidos, uma
vez que fica clara a vulnerabilidade dessa estratégia em um contexto
de crise.
Na
verdade, admite o próprio estudo, que, nesse primeiro momento, a queda
nos planos de investimento foram minimizadas. A razão é que grande
parte das projeções estariam vinculadas a “custos afundados” já
incorridos, como é o caso dos setores extrativo mineral e siderurgia.
Com uma lógica semelhante, a crise se revela de forma ainda suave
sobre o “bloco da energia”, tendo em vista as descobertas das novas
reservas, que exigirão grandes investimentos, e os contratos de
fornecimento de energia já firmados pelo governo.
A gravidade da crise já se fez sentir nesses setores condicionados
pela demanda externa, mas ainda aparece de forma diminuta na medida em
que muitos dos investimentos planejados são desdobramentos de
inversões já realizadas.
Na
conclusão do estudo, ainda que mais uma vez tenha sido explicitado o
fato de que os setores mais afetados pela crise internacional
serão
os
de produtores de commodities, “ cujos investimentos estavam voltados para
atender a um forte aumento da demanda mundial por produtos básicos”,
não há qualquer menção sobre a necessária reorientação do BNDES diante
desse novo cenário e se o Banco manterá sua aposta decisiva no
incremento desses setores. A recente compra da Aracruz Celulose pela
Votorantim com financiamento do BNDES e com a ampliação da sua
participação como acionista da empresa demonstram claramente a opção
do Banco de seguir na mesma estratégia, evidenciando inclusive a
ausência de qualquer racionalidade econômica passível de uma defesa
consistente.
Há
mais a ser ressaltado. O estudo não faz referência aos impactos
negativos da demanda de energia de empresas eletrointensivas, como a
siderurgia, por exemplo. Esse quadro, dentro de uma perspectiva
positiva e estratégica, poderia ser interpretada pelo BNDES como uma
excelente oportunidade para se realizar um investimento de mais largo
prazo e alcance. O momento se mostra oportuno para se transformar em
padrão o que tem se limitado a chamar de “alternativa”. Mas a
oportunidade é desperdiçada porque essa opção não atende à forte
demanda das eletrointensivas, voltadas para as crescentes exportações
nos últimos anos.
As críticas que
várias organizações e movimentos da sociedade civil têm feito a um dos
principais indutores do desenvolvimento brasileiro há muito tocam em
questões que despontam no contexto da crise financeira internacional e
aparecem no texto da análise do Banco. Essas críticas foram
apresentadas no documento Plataforma BNDES (veja
aqui) como um convite
de diálogo setorial e estratégico entre sociedade civil organizada e
BNDES. A resistência à visão apresentada ainda é grande, pois o Banco
prefere responder de forma pouco reflexiva e indutiva ao fluxo de
negócio que o movimenta e mantém elevadas as suas taxas de desembolso
e de lucro. Por outro lado, os estudos que são desenvolvidos pelo
BNDES não avançam para além da constatação e não assumem a análise
estratégica propositiva que lhe cabe. Talvez a crise se apresente como
o momento oportuno para reorientação das prioridades setoriais do
BNDES e para mostrar que as propostas que sinalizam para outras formas
de promover o desenvolvimento do nosso país não são primárias ou
antiquadas, e sim totalmente afinadas com o novo contexto mundial.
1- Segundo o
Boletim de Desempenho do BNDES, no ano de 2008 as micro e pequenas
empresas receberam 10% do orçamento do BNDES e as grandes 76%. Cabe
ainda ressaltar que pelo critério de classificação do BNDES as
pequenas empresas são aquelas cujo receita operacional bruta anual é
maior que R$1,2 milhões e menor que R$10,5 milhões. Essa classificação
é bem acima do que é classificado pelo Estatuto da Micro e Pequena
Empresa, que considera uma empresa de pequeno porte aquela que
apresenta receita bruta anual superior a R$240 mil e inferior a R$ 2,4
milhões.
*Economista e
pesquisadora do Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e
Econômicas
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